

Ferramentas Pessoais
Coluna do meio
12/07/2007

UMA GUERRA ON THE ROCKS, POR FAVOR?
Ações do documento
Não faça guerra, faça amor, diziam os hippies. Faça amor, não faça filhos, diziam os yuppies. Eu, um mero morador do centro de São Paulo, sem amor pra fazer, quero minha guerra onthe rocks, por favor. Shaken. Not stirred.
Tudo começou quando a Rosana me emprestou as duas primeiras temporadas de Lost. Eu tinha acabado de me mudar pro apartamento do Franklin e ia ficar por lá enquanto ele estivesse em Salvador, portanto, tinha uma casa nova até dezembro.
Era março e as noites eram quentes.
O Franklin havia deixado cama, TV, DVD e geladeira.
Observe como tudo entra na história.
Eu estava deitado na cama, coçando o umbigo e assistindo Lost quando aquela luzinha vermelha começou a piscar no teto do quarto. Parecia que um carro de polícia tinha, silenciosamente, encostado do lado da minha janela e estava prestes a descer o enquadro em mim. Se o apartamento do Franklin não ficasse no quinto andar, dava até pra cogitar a idéia, mas não. Como eu não tinha armário, tinha deixado todas as roupas penduradas no mancebo que a Sil me deu na mudança da casa da Pompéia.
Se eu – que tinha colocado aquele espantalho ali – já tinha aberto a porta e achado que havia alguém de sobretudo junto à janela, o que impediria alguém, olhando de fora, de pensar a mesma coisa?
O mancebo ficava justamente do lado da janela e era ele que impedia que os vizinhos me vissem pelado na cama quando o dia clareasse. Era ele que tapava o buraco da persiana que quebrou e não baixava nem até a metade da janela.
Pausei o DVD e, com o caminho clareado pela luz da TV, olhei sobre o ombro do mancebo. No prédio em frente, na área de serviço de um apartamento do segundo andar, tinha um moleque com um daqueles chaveirinhos com laser, cismado com aquela figura de sobretudo e chapéu que não saía da frente da janela nem por um minuto.
Fiquei de joelhos e, lentamente, fui afastando o mancebo para uma das janelas, de modo que houvesse espaço para que eu abrisse a outra.
O que eu ia fazer diante daquilo – uma luz vermelha piscando no teto do meu quarto – ainda não estava decidido. O que eu sabia era que, pro que quer que fosse, eu ia precisar de espaço naquela janela.
Liguei o som em busca da trilha sonora e entrou o "Chaos A.D.", do Sepultura. Nem mexi mais.
Ele continuava lá, apontando aquele laser pro mancebo. Há de se dizer em favor do moleque que o mancebo estava vestido com um sobretudo, usava um cachecol vermelho e tinha, na cabeça, o chapéu de aba de Venice Beach que eu ganhei do Alysson. Qualquer um, daquela distância e com aquela luz, iria pensar que se tratava de uma pessoa.
Aproveitei a pausa pra pegar um pedaço de pizza e abrir mais uma cerveja, mas quando abri a geladeira, me veio a luz. Tive que pegar a cerveja no freezer porque tinha deixado a geladeira degelando durante todo o dia e as placas de gelo estavam se soltando. A cerveja vinha gelada como uma mulher depois que você faz uma cagada das grandes.
Raspei uma das paredes do freezer com uma caneca de plástico até ter gelo o bastante pra fazer uma raspadinha. Fui até a cozinha, virei a raspadinha na mão e apertei até formar uma bolota de neve.
Na época em que eu morava naquele apartamento de primeiro andar na Lins de Vasconcelos, era isso que meu irmão e eu jogávamos nas pessoas na rua, pra dentro do ônibus elétrico, nos moleques do prédio da frente, nos crentes que passavam cantando de segunda dez da noite. Era como jogar uma pedra perfeita – porque era você que decidia a forma quando moldava a bolota – e, pra quem cresceu jogando pedra, não tem nada como jogar uma pedra perfeita num alvo perfeito.
O efeito é mágico e eu lembrei disso assim que a bolota de neve atingiu a mureta na frente do moleque. De repente, alguma coisa fazia um ruído surdo perto dele e ele era respingado por pequenas partículas de gelo. Não machuca, mas dá um susto do caralho e, quando você vai ver o que foi que te jogaram, já era: a neve já derreteu. O moleque olhava pra cima, olhava pro lado, apontava o laser pra tudo quanto era janela, enquanto eu raspava a caneca e fazia mais uma bola de neve.
A idade pode ter me enferrujado um pouco, a neve pode ter congelado um pouco meus dedos, mas a segunda bolada provou que eu nasci pra coisa.
O sujeito tomou uma bolotada no peito e, horrorizado, não sabia de onde tinha vindo, nem porque era tão frio. Sabia, sim, que tinha alguma coisa grudada no peito dele.
Ele correu pra dentro como criança chamando a mãe e eu fiquei escondido por trás dos ombros do mancebo, vendo o que acontecia. E não é que, mesmo depois daquele susto ele insistiu em continuar com o laser, apontando pra todos os apartamentos suspeitos? Não havia dúvidas: ele precisava de algo mais.
Fui até a geladeira, despreguei uma placa de gelo do freezer, levei pra pia e, com um martelo, dividi em pedaços não muito grandes. O impacto teria que ser moral e não mortal.
Escolhi uma pedra que era do tamanho do topo de uma latinha de cerveja. Era gelo maciço. Se acertasse um pouco pra direita, pegava a janela e, aí, de caçador, eu virava caça, porque ele teria do que reclamar. Olhei por cima do mancebo e ele continuava lá, encolhidinho atrás da porta, só com os dedos segurando a porta em uma fresta através da qual ele pudesse olhar pra onde apontava.
Calculei a trajetória, respirei e mandei o gelo. Deu tempo de ver a pedra se espatifando contra a porta e ricocheteando para a esquerda. Derrubou um regador, que fez um puta barulho quando caiu no chão. Os vizinhos todos saíram na janela e eu continuei ali, escondido pelo manto das trevas, me sentindo um dos perigos da ilha do Lost.
O moleque saiu da toca, recolheu o regador e achou o que restava da pedra de gelo. Furioso, jogou a pedra na direção do meu vizinho da esquerda, que é uma casa que fica vazia na maior parte do tempo. A velha do prédio da direita berrou: "Se você ficar jogando lixo pela janela, eu vou chamar a polícia".
Ele pediu desculpas e voltou pra dentro.
Fiquei com vontade de berrar "SE FODEU, OTÁRIO!", mas eu tenho certeza que era justamente essa frase que estava na cabeça dele naquela noite quando ele deitou a cabeça no travesseiro e finalmente dormiu.
Ações do documento
Leia Também
internotas
- Vulca estréia o clipe "Minha Vitrola"
- Músicos querem ter maior controle sobre suas músicas
- Turnê dos Darma Lóvers com Dado Villa-lobos
- Acústico Mundo Livre FM com Real Coletivo Dub
- MegaRex apresenta Humor & Música no Coppola
- TNY volta para o Esconderijo Cervejaria nesta sexta
- Tomada com novos integrantes
- Seja um fã-book do Fake Number
- Faça o CD do Dulenes do seu jeito
- Agenda do Supertrunfo para os próximos meses





Jogar coisas pela sacada é uma das coisas que mais me diverte. Escuro, coçando o umbigo, nada pra fazer, vizinhos na sacada: totalmente propício :D
adorei a coluna hahaha